#obras de renovação

. digamos que estou em obras de renovação, manutenção e afins.
. não tenho pressa e também não vou a lado nenhum .
. 2020 vem aí. bom ano, boa casta .

 

estou em obras

#words don’t come easy

Por isso, ficam as palavras de Pema Chödrön .
As minhas – palavras – não me apetecem.

“What keeps us unhappy and stuck in a limited view of reality is our tendency to seek pleasure and avoid pain, to seek security and avoid groundlessness, to seek comfort and avoid discomfort. This is how we keep ourselves enclosed in a cocoon. Life in our cocoon is cozy and secure. The mind is always seeking zones of safety, and these zones of safety are continually falling apart. That’s the essence of samsara – the cycle of suffering that comes from continuing to seek happiness in all the wrong places.”

In Comfortable with Uncertainty  by Pema Chödrön

#cadavre exquis

 

dav

” Chovia torrencialmente e, à minha frente, vi alguém cair.  Fui a correr; ajudar está-me no sangue. Perguntei-lhe o nome:

– Sou a Bili – disse ela, desvagar.

Percebi que teria de me munir com a minha paciência mais guardada. Ela até ao cair, caíu desvagar!

Respirei fundo e sentei-me no chão, com ela.

– O que tens?

– Não tenho. Esse é o problema. Falta-me.

– Queres vir até à praia?

– Não! – e voltou a desvagar, para um lado e para o outro, desviando devagarinho.

Repirei mais fundo, fui buscar mais paciência.

– O que te falta,  Bili?

– Falto-me eu. Estou com um desgosto de amor. Perdi-me.

– Queres que fique? – perguntei, desvagar.

– Pára! – disse-me ela. Pareces um pinguim histérico!

– Queres que me cale?

– Quero! – respondeu.

E fiquei ali. Sentada no chão, eu própria perguntando-me se não preciso de uma mudança no rumo de vida. Foi como um pontapé, em cheio no peito. E ali resolvi, então.

Vou desvagar, que se faz tarde.”

#despertar

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.

Carl Jung, A Prática da Psicoterapia

#tentativa de fuga

Esta manhã, fugi para o Japão.

E saíram, em pequenos bochechos, uma lágrima aqui, outra ali.  Não deu para fugir mais.  Quando se está num certo estado de alma, é mais fácil aceder à dor.

Tu sabes pai, que nunca disseste que me amavas – ou eu não me lembro. Mas sinto-o todos os dias, impregnado na minha alma – o teu amor.  O teu riso maroto, quando fazias tropelias, não só as fazias a mim, mas também as fazias comigo.  E depois rias.

Deitavas-te às nove e meia da noite, a ler o jornal, e eu – de quatro ou cinco anos – deitada contigo,  a ler também, claro.  E tu rias.  Olhavas pra mim com um ar maroto e rias. Era mais uma tropelia das tuas; tinhas virado o enorme jornal “O Século” de pernas para o ar e pedias-me para eu ler.  E eu lia, claro. Com uma confiança tal que saía um belo gibberish (belo, achava eu, porque tu rias) e eu continuava a ler o teu jornal de pernas para o ar, decididamente estava a ler muito bem – achava eu.

E quando tu escondias da mãe que tínhamos estado no campo de futebol a fazer derrapagens na neve, com o nosso Austin azul.   Bom, nós tínhamos ido às compras; realmente lá trouxemos as compras, as derrapagens, ficavam lá na neve. Nunca derrapámos na conversa.

E são tantos, mas tantos os momentos em que fomos marotos juntos; como eu te entendia, como ainda hoje te entendo. Compreendo, sim.

Os teus olhos nunca mentiram para mim.  Desse a vida as voltas que desse,  o teu amor por mim estava ali, nos teus olhos.

Eu sei, pai, que sempre foste um maroto, fazias as tuas picardias.

Eu também sei  e sinto  que foste um grande pai para mim e um enorme avô , para a tua neta.  As mulheres da tua vida foram várias e ainda bem, porque muito te amaram e amam ainda.  Sorte a nossa  a quem amaste tu muito.

Agora, tenho  tanta falta da tua mão na minha,  de eu te beijar a mão, de controlar tanto a dor cá dentro, para não chorar ao pé de ti.  E depois, ficava o teu cheiro na minha mão,  quando me vinha embora.

E eu leveva a minha mão ao nariz – o cheiro do meu pai.  Não consigo descrever, mesmo.

Ainda o tenho e sei que terei sempre.

Sempre achei (como tu sabes, a tua filha é sempre de opiniões fortes – vulgo “teimosa”, pois) que seria muito forte e não choraria,  quando os que tanto amo partissem.

Tu partiste e quando soube, não chorei.  Naquele momento não chorei.

Fui percebendo, semana, após semana  que  quem parte, nunca parte; quem fica cá, sente na pele o toque, o cheiro, o colo. O teu colo embala-me todos os dias.

E hoje, então, pai, está a ser um bom colo, porque já posso chorar à vontade; já sabes que o que sinto por ti é tão gigante que não é dor, é amor.  E chora-se muito por amor.  E limpa-se a alma.E não fica cá nada que seja estranho ou mágoa ou , sei lá.

O que fica és tu, a essência de ti, em mim.  Quero que saibas que és muito amado, muito. E sei que não falo só através do meu amor de filha.

Tu sabes, porque vens devagarinho ter comigo e me sussurras ao ouvido – agora já podes chorar, filha, eu olho por ti!

E eu choro, pai.