#tentativa de fuga

Esta manhã, fugi para o Japão.

E saíram, em pequenos bochechos, uma lágrima aqui, outra ali.  Não deu para fugir mais.  Quando se está num certo estado de alma, é mais fácil aceder à dor.

Tu sabes pai, que nunca disseste que me amavas – ou eu não me lembro. Mas sinto-o todos os dias, impregnado na minha alma – o teu amor.  O teu riso maroto, quando fazias tropelias, não só as fazias a mim, mas também as fazias comigo.  E depois rias.

Deitavas-te às nove e meia da noite, a ler o jornal, e eu – de quatro ou cinco anos – deitada contigo,  a ler também, claro.  E tu rias.  Olhavas pra mim com um ar maroto e rias. Era mais uma tropelia das tuas; tinhas virado o enorme jornal “O Século” de pernas para o ar e pedias-me para eu ler.  E eu lia, claro. Com uma confiança tal que saía um belo gibberish (belo, achava eu, porque tu rias) e eu continuava a ler o teu jornal de pernas para o ar, decididamente estava a ler muito bem – achava eu.

E quando tu escondias da mãe que tínhamos estado no campo de futebol a fazer derrapagens na neve, com o nosso Austin azul.   Bom, nós tínhamos ido às compras; realmente lá trouxemos as compras, as derrapagens, ficavam lá na neve. Nunca derrapámos na conversa.

E são tantos, mas tantos os momentos em que fomos marotos juntos; como eu te entendia, como ainda hoje te entendo. Compreendo, sim.

Os teus olhos nunca mentiram para mim.  Desse a vida as voltas que desse,  o teu amor por mim estava ali, nos teus olhos.

Eu sei, pai, que sempre foste um maroto, fazias as tuas picardias.

Eu também sei  e sinto  que foste um grande pai para mim e um enorme avô , para a tua neta.  As mulheres da tua vida foram várias e ainda bem, porque muito te amaram e amam ainda.  Sorte a nossa  a quem amaste tu muito.

Agora, tenho  tanta falta da tua mão na minha,  de eu te beijar a mão, de controlar tanto a dor cá dentro, para não chorar ao pé de ti.  E depois, ficava o teu cheiro na minha mão,  quando me vinha embora.

E eu leveva a minha mão ao nariz – o cheiro do meu pai.  Não consigo descrever, mesmo.

Ainda o tenho e sei que terei sempre.

Sempre achei (como tu sabes, a tua filha é sempre de opiniões fortes – vulgo “teimosa”, pois) que seria muito forte e não choraria,  quando os que tanto amo partissem.

Tu partiste e quando soube, não chorei.  Naquele momento não chorei.

Fui percebendo, semana, após semana  que  quem parte, nunca parte; quem fica cá, sente na pele o toque, o cheiro, o colo. O teu colo embala-me todos os dias.

E hoje, então, pai, está a ser um bom colo, porque já posso chorar à vontade; já sabes que o que sinto por ti é tão gigante que não é dor, é amor.  E chora-se muito por amor.  E limpa-se a alma.E não fica cá nada que seja estranho ou mágoa ou , sei lá.

O que fica és tu, a essência de ti, em mim.  Quero que saibas que és muito amado, muito. E sei que não falo só através do meu amor de filha.

Tu sabes, porque vens devagarinho ter comigo e me sussurras ao ouvido – agora já podes chorar, filha, eu olho por ti!

E eu choro, pai.