#despertar

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.

Carl Jung, A Prática da Psicoterapia

#felicidade de pacote

E tal como o pudin flã,  sai uma felicidade de pacote.  Cheia de sunny days  – abençoados, por sinal – e nada de trovoadas (belíssimas), nada de relâmpagos, nada de chuvas fortes e temporais.

Mas… mas…

Há trovoadas fortes e o que fazemos? Vamos pela fé?  Rezamos a Santa Bárbara como faz a minha mãe, que se assusta terrivelmente com o som do trovão?  Apenas há poucos anos aprendi a respeitar muito isso na minha mãe.

O que faço eu? Vou direita para a janela, se possível para a rua, para ver onde ribomba o trovão, quanto tempo demora entre o relâmpago e o trovão: “ai que a trovoada está tão perto, sai daí filha!”  E eu rio, profundamente feliz de ver a natureza no seu estado mais puro,  como se a sentisse dorida de tão zangada que está.

Sei lá se a natureza se zanga! Apenas me sinto feliz por ter esta oportunidade de ver o que nos aterroriza e que nos assusta e sou capaz de sorrir para este medo. Nem sinto o medo, sequer.  Só abençoo estas trovoadas que tanto bem fazem ao nosso planeta mãe.

E assim crio um momento de meditação, em que não me afasto de ninguém,  estou dentro de tudo, usufruo de tudo o que está cá dentro naqueles cinco minutos de trovoada latente – porque depois, como tudo, ela vai embora.  E sou tão trovoada!  Tenho aprendido,  entretanto, a trovejar  e ribombar muito melhor para o bem de todos.

E quando vêm estes ventos fortes que nos despenteiam? Dias depois, vem um nevoeiro que nos abraça tanto, que até afeta a nossa visão.  E aí, quem conduz qualquer veículo sabe, é preciso ir devagar.  Para nosso bem e, consequentemente, dos outros.

E como eu adoro as chuvas fortes! Sim, mesmo quando estou na rua, sem sapatos apropriados e roupa molhada quase até aos ossos!  É que guarda-chuvas, tal como relógios de pulso,  não andam comigo.  Depois entro no carro, molho o assento,  sacudo o cabelo, vai água para o pára-brisas e fico ali a respirar, como se tivesse corrido uns bons quilómetros.  E assim fico, umas vezes espero que passe, outras ligo o carro e vou para casa.

Como é que a vida pode ser feita só de dias de sol?  Há uma maravilha e um espanto profundo no tempo que faz,  na passagem do dia para a noite e mais um dia e mais uma noite.  No inverno, gosto de hibernar.  Agora vem aí a primavera e é tempo de florir. Mas como poderemos nós florir, se estamos sempre em dias de sol? Senão cair muita chuva, se as rajadas de vento não nos trouxerem sementes de plantas lindas de outros locais? Se as nossas nuvens não permitirem que a Mãe Terra descarregue energia elétrica, entre solo e “céu”?

Pois, imagino que o que acabo de escrever pouco importe, porque eu não vendo felicidade de pacote.  Isso não.  Não me queixo se chove, não me queixo se não chove.  Não me queixo quando “isto está tudo muito mal” , quando sinto que tudo acontece com um ritmo natural e o queixume sobre o tempo que faz soa-me a um apelo infantil, como uma constante birra de adultos.  Não atribuo o tempo a uma entidade divina.  Sim, não atribuo a responsabilidade do tempo a Deus (podemos chamar-lhe várias coisas);  acho mesmo necessário que, por cá, a terra vá tremendo de vez em quando, em jeito de arrumar melhor as placas tectónicas que estão mesmo debaixo do nosso território.  Claro que assusta!   Mas a Mãe Terra precisa de se mover – se possível suavemente, para a vida dos seres humanos se manter inalterada –  como nos aconchegamos à noite na cama, até encontrarmos a posição que nos tranquiliza, finalmente, para o nosso corpo adormecer e o nosso cérebro se regenerar durante o sono.

Respeito a Santa Bárbara da minha mãe, que tranquiliza as trovoadas.   Respeito a palavra Deus a quem muitos cristãos se dirigem para pedinchar;  abençoados todos quantos se lhe dirigem para dar Graças e Louvores a toda esta beleza onde moramos.

Sim, gosto de dias de sol, claro!  Gosto de dias de chuva, de vento forte e de nevoeiro.  E gosto muito de ter o respeito de navegar por entre estes dias com uma velocidade diferente,  com uma atenção diferente,  com um olhar diferente.

Assim ando, numa delícia de coisas diferentes. E um dia nunca é igual ao outro,  um minuto nunca é igual ao outro.  E eu sou outra,  entre uma inspiração e uma expiração.

Felicidade de pacote e dias de sol?  Suspiro, respeito, mas essa não sou eu.

#tentativa de fuga

Esta manhã, fugi para o Japão.

E saíram, em pequenos bochechos, uma lágrima aqui, outra ali.  Não deu para fugir mais.  Quando se está num certo estado de alma, é mais fácil aceder à dor.

Tu sabes pai, que nunca disseste que me amavas – ou eu não me lembro. Mas sinto-o todos os dias, impregnado na minha alma – o teu amor.  O teu riso maroto, quando fazias tropelias, não só as fazias a mim, mas também as fazias comigo.  E depois rias.

Deitavas-te às nove e meia da noite, a ler o jornal, e eu – de quatro ou cinco anos – deitada contigo,  a ler também, claro.  E tu rias.  Olhavas pra mim com um ar maroto e rias. Era mais uma tropelia das tuas; tinhas virado o enorme jornal “O Século” de pernas para o ar e pedias-me para eu ler.  E eu lia, claro. Com uma confiança tal que saía um belo gibberish (belo, achava eu, porque tu rias) e eu continuava a ler o teu jornal de pernas para o ar, decididamente estava a ler muito bem – achava eu.

E quando tu escondias da mãe que tínhamos estado no campo de futebol a fazer derrapagens na neve, com o nosso Austin azul.   Bom, nós tínhamos ido às compras; realmente lá trouxemos as compras, as derrapagens, ficavam lá na neve. Nunca derrapámos na conversa.

E são tantos, mas tantos os momentos em que fomos marotos juntos; como eu te entendia, como ainda hoje te entendo. Compreendo, sim.

Os teus olhos nunca mentiram para mim.  Desse a vida as voltas que desse,  o teu amor por mim estava ali, nos teus olhos.

Eu sei, pai, que sempre foste um maroto, fazias as tuas picardias.

Eu também sei  e sinto  que foste um grande pai para mim e um enorme avô , para a tua neta.  As mulheres da tua vida foram várias e ainda bem, porque muito te amaram e amam ainda.  Sorte a nossa  a quem amaste tu muito.

Agora, tenho  tanta falta da tua mão na minha,  de eu te beijar a mão, de controlar tanto a dor cá dentro, para não chorar ao pé de ti.  E depois, ficava o teu cheiro na minha mão,  quando me vinha embora.

E eu leveva a minha mão ao nariz – o cheiro do meu pai.  Não consigo descrever, mesmo.

Ainda o tenho e sei que terei sempre.

Sempre achei (como tu sabes, a tua filha é sempre de opiniões fortes – vulgo “teimosa”, pois) que seria muito forte e não choraria,  quando os que tanto amo partissem.

Tu partiste e quando soube, não chorei.  Naquele momento não chorei.

Fui percebendo, semana, após semana  que  quem parte, nunca parte; quem fica cá, sente na pele o toque, o cheiro, o colo. O teu colo embala-me todos os dias.

E hoje, então, pai, está a ser um bom colo, porque já posso chorar à vontade; já sabes que o que sinto por ti é tão gigante que não é dor, é amor.  E chora-se muito por amor.  E limpa-se a alma.E não fica cá nada que seja estranho ou mágoa ou , sei lá.

O que fica és tu, a essência de ti, em mim.  Quero que saibas que és muito amado, muito. E sei que não falo só através do meu amor de filha.

Tu sabes, porque vens devagarinho ter comigo e me sussurras ao ouvido – agora já podes chorar, filha, eu olho por ti!

E eu choro, pai.

 

#dia da mulher (?!)

Não nos tratem como estúpidas, hoje.
Não nos tratem como vítimas, não nos achem coitadinhas, ou “mulheres coragem” ou sei lá o quê. Hoje é um dia como outro qualquer.
Mulher é o feminino de homem – e com esta questão óbvia, que não merece qualquer ponderação, pois pondere-se.
Somos seres humanos, todos. Há “homens coragem” , há mulheres violentas, há homens sensíveis, há mulheres frias e calculistas. Há de tudo, sem qualquer preponderância no género do ser humano que nos habita.

Nasci mulher, amo esta mulher que me habita; sou romântica e não gosto de o admitir; gosto de uma flor, mas hoje não.
Tenho vivido nos últimos tempos, talvez anos, num mundo feminino e isto não tem uma só interpretação.
Tenho socializado com homens e mulheres, no entanto, tudo tem sido feminino, sensível, encantador, mágico mesmo.
Não levanto o meu braço em luta, hoje.
Baixo os dois, olho com carinho e ofereço o meu colo, como mulher – a mãe terra que me habita – e sou a primeira a deitar-me no colo que fiz para mim.

Digo sim à mulher que sou: quando choro, quando grito e me zango, quando me dói sei lá onde, quando amo. Quando amo e me afasto dos que amo, só pela antecipação da dor de os perder. Quando fujo e me escondo – tantas vezes de mim mesma. Digo sim. Digo tantos sins à sensibilidade que tenho e que escondo por detrás de uma coluna vertebral ereta, de uma postura de força que nem sei de onde me vem.

Trate-se das vítimas, num outro dia, por favor. Há pessoas que sofrem todos os dias do ano e há dias, sítios, locais, entidades e ocasiões próprias para o fazer.
Hoje, olhem-nos nos olhos. Sim, mulheres também.
A ver se todos conseguimos sentir este mulherismo que há em nós, a miríade de cores que se entrança cá dentro.

No meio disto tudo, por favor, não nos tratem como estúpidas e coitadinhas, hoje, nem como guerreiras amazónicas capazes de tudo pela sua tribo e leoas, pelas suas crias.

Homens e mulheres, somos todos completos como somos e seria delicioso se hoje se celebrasse a união entre o masculino e o feminino, homem e mulher, unidos.

Afinal, somos feitos da mesma carne, do mesmo pó e são as diferenças que nos aproximam, que nos atraem; são as diferenças que fazem de nós seres melhores.

Se hoje apenas nos olhássemos nos olhos!

le mepris

#medo

Hoje, o medo é muito forte.

É grande, é enorme, é real.

Conheço bem as variantes do medo, como as variantes da paixão, do interesse, da curiosidade.

E hoje, bolas, o medo é muito real, físico e tremendo!

Quando me assusto, o meu corpo costuma entrar em modo racional e aciona um mecanismo de sobrevivência.

Hoje, de forma consciente, sinto tanto este medo, intenso, que mal consigo racionalizar.

Racionalizar, para mim, é pensar direito.  Agorinha mesmo, não estou a ser capaz.

Nestes momentos, há quem recorra à fé – seja lá no que for ; há quem se sinta melhor ao falar com alguém; há quem peça ajuda; há quem chore.

O susto porém, fica, até sarar. É real como um trauma – uma ferida num dedo.

É importante deixá-lo sarar – o susto, o trauma.

No fundo, é tão, tão importante simplesmente respirar.