#words don’t come easy

Por isso, ficam as palavras de Pema Chödrön .
As minhas – palavras – não me apetecem.

“What keeps us unhappy and stuck in a limited view of reality is our tendency to seek pleasure and avoid pain, to seek security and avoid groundlessness, to seek comfort and avoid discomfort. This is how we keep ourselves enclosed in a cocoon. Life in our cocoon is cozy and secure. The mind is always seeking zones of safety, and these zones of safety are continually falling apart. That’s the essence of samsara – the cycle of suffering that comes from continuing to seek happiness in all the wrong places.”

In Comfortable with Uncertainty  by Pema Chödrön

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#ecos

Lisboa, 16 de Julho de 2005

16H49

Observo-me neste escuro imenso em que me encontro. Não tenho referências, não tenho objetivos, não tenho nada. 

Esta felicidade de nada temer, ou de tudo temer, revolve-se cá dentro como um caos; sem ordem, sem disciplina, porém, com energia. 

Há de tudo a acontecer no mundo. Bombas a explodir, incêndios a deflagrar, crianças, homens e mulheres a morrer. E eu nada sinto. 

Vazio total e absoluto; mesmo que faça tudo, mesmo que esteja ativa, nada sinto. 

É um estado vazio, onde me observo a observar. 

Nada concluo, porque em nada penso.

Nada sinto. Nada rodopiante, nada preocupante, nada que me preocupe, nada que me interesse.

É como se tivesse chegado ao ponto em que tenho tudo, por isso me parece nada. 

Nada mais a desejar, porque tenho tudo. 

Estou parada, em movimento ao mesmo tempo. 

Estou triste e alegre simultaneamente. 

Posso finalmente estar calma, reservada, sozinha comigo mesma, porque sinto que já tenho tudo.  Sem defesas, sem esforço. 

É como se assim me encontrasse, de tão perdida que estava. 

É como quando se mora muitos anos numa casa, em que se vão acumulando coisas inúteis. 

Muda-se de casa.  Tem de se esvaziar aquela outra, a primeira.  E também se entra na casa nova, vazia de tudo.  Até se ouve o eco da nossa voz quando falamos. 

Assim fiz; mudei de casa, tirei o lixo que tinha lá dentro e entrei na casa nova onde tudo está vazio. 

Agora, oiço apenas o eco da minha voz. 

As paredes, com janelas amplas para o infinito, onde me basta apenas espreitar, varandas livres para me debruçar, sem medo de cair. 

É assim, quando se está em liberdade total, que vem ao de cima aquela tristeza que sempre tivemos e só agora, devagarinho, se atreve a aparecer; sem raiva, sem dor, nem rancor. 

Espreita e não sabíamos que a tínhamos. 

Até ao momento em que temos de lidar com ela. 

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Há 14 anos, um texto escrito que reflete exatamente quem sou.  Não como estava na altura, mas sim quem sou.  Passados todos estes anos,  esta continua a ser a minha essência, feita de muita liberdade, de tantos silêncios, que agora até as palavras doem.  E lá no fundo, tanta coisa dói  tanto, que no espaço de 14 anos fui mascarando dor.

Foi muito bom ter encontrado este texto e ter remexido nas centenas de cds que tenho em casa.

Não há passado, não há futuro. Há apenas este presente que dói. Agora já sem mascaradas, sem distrações, sou assim.

E está tudo bem.

 

 

#cadavre exquis

 

dav

” Chovia torrencialmente e, à minha frente, vi alguém cair.  Fui a correr; ajudar está-me no sangue. Perguntei-lhe o nome:

– Sou a Bili – disse ela, desvagar.

Percebi que teria de me munir com a minha paciência mais guardada. Ela até ao cair, caíu desvagar!

Respirei fundo e sentei-me no chão, com ela.

– O que tens?

– Não tenho. Esse é o problema. Falta-me.

– Queres vir até à praia?

– Não! – e voltou a desvagar, para um lado e para o outro, desviando devagarinho.

Repirei mais fundo, fui buscar mais paciência.

– O que te falta,  Bili?

– Falto-me eu. Estou com um desgosto de amor. Perdi-me.

– Queres que fique? – perguntei, desvagar.

– Pára! – disse-me ela. Pareces um pinguim histérico!

– Queres que me cale?

– Quero! – respondeu.

E fiquei ali. Sentada no chão, eu própria perguntando-me se não preciso de uma mudança no rumo de vida. Foi como um pontapé, em cheio no peito. E ali resolvi, então.

Vou desvagar, que se faz tarde.”

#aim to please

Percebi coisas.

Só através da maneira como me relaciono com os outros e os outros comigo,  percebi, entendi mesmo que gosto de agradar e tenho tendência para procurar “pedaços partidos para consertar” – broken pieces to mend.

Assim vejo os pedaços partidos dentro de mim que chocalham quando me zango; por causa de tanto chocalhar, não os ouvia bem e por aqui têm estado mais de cinco décadas, até que durante anos – talvez cinco ou seis – tudo chocalhou demais até gritar aos quatro ventos : “deixem-me em paz!”.  E gritava mesmo. Não sei bem a quem me dirigia, mas era um lamento bem audível.

Percebi coisas.

Claro!  De tanto chocalhar, foi preciso amenizar, senão nem eu me ouvia a mim mesma e gritava por cima da voz dos outros.

Mas faria tudo isto sozinha?  Creio que não.  Por isso adoro pessoas.  São elas que me trazem notícias de mim.

Parei mais de cinco anos só para me ouvir, tal era a barulheira.  Parei literalmente.  Sentada no meu sofá horas a fio. Ainda o faço.  E gosto.

Entretanto, vou sentido a vontade de sair e gosto de sair só.

Ando a namorar-me!

sozinha

 

#love sells #o amor vende

Às vezes faltam-me palavras para explicar esta minha forma de sentir, talvez porque seja recente. Talvez.

É um facto que o amor “vende”.  Sobretudo se a palavra for usada como tag (etiqueta), então é inegável, mesmo.

E, claro,  também as canções de amor “vendem”, os poemas de amor “vendem”, as histórias de amor sempre “venderam;  simplesmente, o princípio chega-nos ao contrário.  Tudo tem muito mais impacto se, na realidade,  se trata de desamor.

Para mim, e sobretudo nesta fase da minha vida, sentir amor não é intenso, como a paixão,; diria que é mais doce, frágil, subtil.  Não nego a paixão. Claro que existe.

Porém, sinto que se estimula o desamor, alguém que sofre por amor… lamento, mas não é amor.  Pode ser desejo, paixão, ou o simples fruto de uma necessidade individual de alguém que ainda não consegue sentir-se preenchido estando só.

É que cada vez faz mais sentido para mim que só mesmo quando estamos completos sozinhos, é que aparece alguém que, por seu lado, estará também muito feliz só, e ambos resolvem juntas as felicidades individuais.

Claro que esta minha perspetiva não é  muito popular.   Prefere-se o “normal” amor tipo Romeu e Julieta,  uma história de ficção, em que as personagens são dois adolescentes – muito bem descrito por Shakespeare – com as hormonas aos saltos, naturais da idade deste Romeu menino e desta Julieta menina.

E andam os adultos deste mundo a sonhar com histórias de desamor, canções de desamor, vidas inteiras de desamor.

E eu suspiro.  Pronto.  Mais uma.

 

#silêncios

Tem havido tantos silêncios. Silêncios que eu nem sabia que existiam.

Às vezes, esses espaços eram preenchidos com palavras ou letras.  Durante muitos anos tinha sido assim.  De repente, os silêncios apareceram, vindos de todo o lado.

Dou comigo a pensar como vou comunicar – que é algo que tanto amo – com tantos silêncios?

É.  Pensava eu que comunicar era preencher esses silêncios.  Porém, se for atrás do meu sentir, estou a gostar mais de ouvir.

Quando dói, parece que dói mais, porque ecoa mais no silêncio do que nas palavras.  Era desses silêncios que tinha medo, desse eco.  Do eco de dores amplificadas.

Agora, quando dói, dói.  Não há como escapar a essa dor. Já não quero escapar a essa dor.  Quero honrá-la e dar-lhe colo; ao fim e ao cabo, ela faz parte de mim.

Sei que a dor não fica sempre; bom, a alegria também não;  ou a zanga.  Tudo chega, tudo vai embora.

Como um malabarista, é ir lidando, devagarinho, com tudo o que surge.  Ganha-se músculo depois;  primeiro, é preciso mesmo ver e ouvir o que podemos usar para os nossos malabarismos da vida.

silence

Nesta altura, são os silêncios que me encantam.  E brotam, assim, naturalmente.