#cadavre exquis

 

dav

” Chovia torrencialmente e, à minha frente, vi alguém cair.  Fui a correr; ajudar está-me no sangue. Perguntei-lhe o nome:

– Sou a Bili – disse ela, desvagar.

Percebi que teria de me munir com a minha paciência mais guardada. Ela até ao cair, caíu desvagar!

Respirei fundo e sentei-me no chão, com ela.

– O que tens?

– Não tenho. Esse é o problema. Falta-me.

– Queres vir até à praia?

– Não! – e voltou a desvagar, para um lado e para o outro, desviando devagarinho.

Repirei mais fundo, fui buscar mais paciência.

– O que te falta,  Bili?

– Falto-me eu. Estou com um desgosto de amor. Perdi-me.

– Queres que fique? – perguntei, desvagar.

– Pára! – disse-me ela. Pareces um pinguim histérico!

– Queres que me cale?

– Quero! – respondeu.

E fiquei ali. Sentada no chão, eu própria perguntando-me se não preciso de uma mudança no rumo de vida. Foi como um pontapé, em cheio no peito. E ali resolvi, então.

Vou desvagar, que se faz tarde.”

#aim to please

Percebi coisas.

Só através da maneira como me relaciono com os outros e os outros comigo,  percebi, entendi mesmo que gosto de agradar e tenho tendência para procurar “pedaços partidos para consertar” – broken pieces to mend.

Assim vejo os pedaços partidos dentro de mim que chocalham quando me zango; por causa de tanto chocalhar, não os ouvia bem e por aqui têm estado mais de cinco décadas, até que durante anos – talvez cinco ou seis – tudo chocalhou demais até gritar aos quatro ventos : “deixem-me em paz!”.  E gritava mesmo. Não sei bem a quem me dirigia, mas era um lamento bem audível.

Percebi coisas.

Claro!  De tanto chocalhar, foi preciso amenizar, senão nem eu me ouvia a mim mesma e gritava por cima da voz dos outros.

Mas faria tudo isto sozinha?  Creio que não.  Por isso adoro pessoas.  São elas que me trazem notícias de mim.

Parei mais de cinco anos só para me ouvir, tal era a barulheira.  Parei literalmente.  Sentada no meu sofá horas a fio. Ainda o faço.  E gosto.

Entretanto, vou sentido a vontade de sair e gosto de sair só.

Ando a namorar-me!

sozinha

 

#love sells #o amor vende

Às vezes faltam-me palavras para explicar esta minha forma de sentir, talvez porque seja recente. Talvez.

É um facto que o amor “vende”.  Sobretudo se a palavra for usada como tag (etiqueta), então é inegável, mesmo.

E, claro,  também as canções de amor “vendem”, os poemas de amor “vendem”, as histórias de amor sempre “venderam;  simplesmente, o princípio chega-nos ao contrário.  Tudo tem muito mais impacto se, na realidade,  se trata de desamor.

Para mim, e sobretudo nesta fase da minha vida, sentir amor não é intenso, como a paixão,; diria que é mais doce, frágil, subtil.  Não nego a paixão. Claro que existe.

Porém, sinto que se estimula o desamor, alguém que sofre por amor… lamento, mas não é amor.  Pode ser desejo, paixão, ou o simples fruto de uma necessidade individual de alguém que ainda não consegue sentir-se preenchido estando só.

É que cada vez faz mais sentido para mim que só mesmo quando estamos completos sozinhos, é que aparece alguém que, por seu lado, estará também muito feliz só, e ambos resolvem juntas as felicidades individuais.

Claro que esta minha perspetiva não é  muito popular.   Prefere-se o “normal” amor tipo Romeu e Julieta,  uma história de ficção, em que as personagens são dois adolescentes – muito bem descrito por Shakespeare – com as hormonas aos saltos, naturais da idade deste Romeu menino e desta Julieta menina.

E andam os adultos deste mundo a sonhar com histórias de desamor, canções de desamor, vidas inteiras de desamor.

E eu suspiro.  Pronto.  Mais uma.

 

#silêncios

Tem havido tantos silêncios. Silêncios que eu nem sabia que existiam.

Às vezes, esses espaços eram preenchidos com palavras ou letras.  Durante muitos anos tinha sido assim.  De repente, os silêncios apareceram, vindos de todo o lado.

Dou comigo a pensar como vou comunicar – que é algo que tanto amo – com tantos silêncios?

É.  Pensava eu que comunicar era preencher esses silêncios.  Porém, se for atrás do meu sentir, estou a gostar mais de ouvir.

Quando dói, parece que dói mais, porque ecoa mais no silêncio do que nas palavras.  Era desses silêncios que tinha medo, desse eco.  Do eco de dores amplificadas.

Agora, quando dói, dói.  Não há como escapar a essa dor. Já não quero escapar a essa dor.  Quero honrá-la e dar-lhe colo; ao fim e ao cabo, ela faz parte de mim.

Sei que a dor não fica sempre; bom, a alegria também não;  ou a zanga.  Tudo chega, tudo vai embora.

Como um malabarista, é ir lidando, devagarinho, com tudo o que surge.  Ganha-se músculo depois;  primeiro, é preciso mesmo ver e ouvir o que podemos usar para os nossos malabarismos da vida.

silence

Nesta altura, são os silêncios que me encantam.  E brotam, assim, naturalmente.

 

#tentativa de fuga

Esta manhã, fugi para o Japão.

E saíram, em pequenos bochechos, uma lágrima aqui, outra ali.  Não deu para fugir mais.  Quando se está num certo estado de alma, é mais fácil aceder à dor.

Tu sabes pai, que nunca disseste que me amavas – ou eu não me lembro. Mas sinto-o todos os dias, impregnado na minha alma – o teu amor.  O teu riso maroto, quando fazias tropelias, não só as fazias a mim, mas também as fazias comigo.  E depois rias.

Deitavas-te às nove e meia da noite, a ler o jornal, e eu – de quatro ou cinco anos – deitada contigo,  a ler também, claro.  E tu rias.  Olhavas pra mim com um ar maroto e rias. Era mais uma tropelia das tuas; tinhas virado o enorme jornal “O Século” de pernas para o ar e pedias-me para eu ler.  E eu lia, claro. Com uma confiança tal que saía um belo gibberish (belo, achava eu, porque tu rias) e eu continuava a ler o teu jornal de pernas para o ar, decididamente estava a ler muito bem – achava eu.

E quando tu escondias da mãe que tínhamos estado no campo de futebol a fazer derrapagens na neve, com o nosso Austin azul.   Bom, nós tínhamos ido às compras; realmente lá trouxemos as compras, as derrapagens, ficavam lá na neve. Nunca derrapámos na conversa.

E são tantos, mas tantos os momentos em que fomos marotos juntos; como eu te entendia, como ainda hoje te entendo. Compreendo, sim.

Os teus olhos nunca mentiram para mim.  Desse a vida as voltas que desse,  o teu amor por mim estava ali, nos teus olhos.

Eu sei, pai, que sempre foste um maroto, fazias as tuas picardias.

Eu também sei  e sinto  que foste um grande pai para mim e um enorme avô , para a tua neta.  As mulheres da tua vida foram várias e ainda bem, porque muito te amaram e amam ainda.  Sorte a nossa  a quem amaste tu muito.

Agora, tenho  tanta falta da tua mão na minha,  de eu te beijar a mão, de controlar tanto a dor cá dentro, para não chorar ao pé de ti.  E depois, ficava o teu cheiro na minha mão,  quando me vinha embora.

E eu leveva a minha mão ao nariz – o cheiro do meu pai.  Não consigo descrever, mesmo.

Ainda o tenho e sei que terei sempre.

Sempre achei (como tu sabes, a tua filha é sempre de opiniões fortes – vulgo “teimosa”, pois) que seria muito forte e não choraria,  quando os que tanto amo partissem.

Tu partiste e quando soube, não chorei.  Naquele momento não chorei.

Fui percebendo, semana, após semana  que  quem parte, nunca parte; quem fica cá, sente na pele o toque, o cheiro, o colo. O teu colo embala-me todos os dias.

E hoje, então, pai, está a ser um bom colo, porque já posso chorar à vontade; já sabes que o que sinto por ti é tão gigante que não é dor, é amor.  E chora-se muito por amor.  E limpa-se a alma.E não fica cá nada que seja estranho ou mágoa ou , sei lá.

O que fica és tu, a essência de ti, em mim.  Quero que saibas que és muito amado, muito. E sei que não falo só através do meu amor de filha.

Tu sabes, porque vens devagarinho ter comigo e me sussurras ao ouvido – agora já podes chorar, filha, eu olho por ti!

E eu choro, pai.